Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

A Cura e a Consciência Espiritual*

As Constelações Familiares são dinâmicas. Quero com isto dizer, que elas não se formaram de uma maneira e a partir daí foram sempre aplicadas dessa forma. Elas evoluíram. E evoluíram no sentido do Espiritual, deixando nas suas origens a sua vertente mais psicanalítica, psicodramática e transaccional. Hoje, ouve-se falar de uma Consciência Espiritual patente neste método terapêutico.
Ao ler um pequeno texto de Joel Goldsmith, “O Segredo do Princípio de Cura”, dei-me conta da sua conectividade com a Consciência Espiritual referida acima. Basicamente, o que é dito nesse texto é que existe um “sonho deste mundo” que cria em nós ideias dicotómicas, como o bem e o mal, mas que essas são apenas ilusões, visto que na essência tudo provêm da mesma fonte, Deus. Lê-se quase no início:


“O erro nunca é uma pessoa, uma condição ou uma coisa. Por tanto, nunca leve até o seu pensamento, e nem queira tratar em pensamento, uma pessoa, condição ou coisa. Na verdade, o erro sempre aparece como uma pessoa ou condição e é isso que confunde os trabalhadores espirituais do mundo. Com cada aparência de erro, se instala no indivíduo uma rebelião, uma resistência ou uma batalha contra alguma pessoa, lugar, circunstancia ou condição, e assim, a luta está perdida. Ninguém na terra, nem grupo algum de pessoas é seu inimigo; nenhum pecado ou doença é seu opositor ou antagonista. Quanto mais você lutar contra uma pessoa, uma doença, um pecado ou uma condição, tanto mais você estará enredado naquilo que chamamos de "este mundo".”
Quem conhece as Constelações, sabe o quanto é verdade que ao dizermos a um filho para não ser como o seu pai, ele se tornará com ele ou tenderá a ser o protector do seu próprio pai. E também o inverso é visível, quando aceitamos que, por exemplo, somos tão loucas como as nossas mães, que fazemos exactamente aquilo que criticávamos, sentimos um tranquilidade inexplicável.
Neste texto de Goldsmith, deparamo-nos com um desmistificar de uma Crença Universal que dentro da Consciência Espiritual pode encontrar concordância. Nós cremos que nascemos de um pai e de uma mãe, ponto final. E como nascemos apenas por questões biológicas, também pela biologia, se encontra o final do ciclo de vida, a morte. Mas o autor esclarece,


“...ninguém morre. Se você for chamado alguma vez para auxiliar alguma pessoa que parece estar se aproximando da morte, trate da velha crença universal de uma vida separada de Deus, uma vida que teve um começo e consequentemente deve ter um fim.”


E um pouco mais à frente, acrescenta:


“Você já me ouviu declarar que quando sou solicitado para uma cura, nunca tomo em consideração, em minha consciência, nem a pessoa, nem a sua condição. E a razão é esta: a pessoa ou a sua condição é um engodo, o laço da armadilha para prender o praticante. Se você quer ajudar a alguém, pare de pensar na pessoa ou em sua condição e entenda que elas são apenas um retrato, uma imagem ou uma aparência do tecido da crença universal, deste sonho universal chamado sonho mortal, chamado de ilusão universal, chamado por muitos outros nomes.”
As Constelações Familiares são uma abordagem sistémica e fenomenológica de situações que ocorrem com uma pessoa. O olhar deste método é sempre sobre o conjunto, o sistema, e em particular a Constelação que as pessoas de uma família formam. E essa visão de todo, e não de partes isoladas, é uma forma de respeitar a presença do Espírito, pois esse é abrangente, não exclui. Joel Goldsmith aconselha mesmo:


“Sempre que for chamado para ajudar na solução de um problema, verifique que quase sempre haverá uma pessoa envolvida nele, mas, já que Deus é o único principio criativo, o filho de Deus não pode se envolver com problema algum; o problema será apenas a crença de uma existência sem Deus.”
Dentro do método que Bert Hellinger desenvolveu e vem praticando, verifica-se que tanto, por exemplo, o Agressor como o Agredido têm um lugar no sistema e que, ao nível da Consciência Espiritual, existe a ausência de Julgamento, sendo mesmo que, após a morte, ambos ficam juntos, sem qualquer litígio. Para a maioria de nós, é difícil aceitar que ambos têm direito a pertencer e que o papel de Agressor e de Agredido é apenas uma ilusão. No entanto, podemos presenciar nas Constelações muitas situações em que é evidente, por exemplo, que o Agressor foi também ele um Agredido, ou que o que traiu, também fora anteriormente traído, mesmo que aparentemente não ao mesmo nível. Goldsmith ilustra esta ideia, dizendo:


“Testemunhamos algumas condições externas ou pessoas más, porém se existe um Deus em tudo, não pode haver tal coisa como uma pessoa, lugar ou coisa má. A dificuldade é que, primeiro vemos a aparência e logo procuramos fazer alguma coisa a respeito da aparência, e assim fazendo, ficamos enredados, nos envolvemos e calmos na armadilha.”
Quando aceitamos o bem e o mal, continuamos nesta ilusão mundana. Sentir e viver com o princípio de que “o Espírito é a realidade subjacente a tudo” desfaz esse sonho e conecta-nos com a nossa Fonte, trazendo o equilíbrio até às nossas vidas.
Neste texto, o autor ainda se debruça sobretudo sobre dois princípios da vida Cristã que são essenciais para uma caminhada consciente neste mundo. E esclarece-nos:


“...para mim, amar o Senhor nosso Deus com todo o meu coração significa não amar indevidamente, e nunca odiar ou temer aquilo que está no âmbito dos reinos físico ou mental... depositar toda a fé no Invisível Infinito, como a realidade da vida que se manifesta externamente como efeito. Chegar a uma realização do profundo significado desta verdade, requer muito estudo. Não amando, odiando ou temendo o que aparece nos reinos físico ou mental, rompemos o sonho mesmérico de uma seidade ou um universo à parte de Deus.”


Portanto, um dos princípios essenciais é “Amar o Senhor nosso Deus com todo o coração”. O segundo é “Amar o próximo como a nós mesmos” e a propósito, o autor escreve:


“Amar o nosso próximo como a nós mesmos, significa realmente reconhecer que Deus é o verdadeiro ser de tudo que é manifesto, não importando a aparência mesmérica que está nos confrontando.”
Este Amor que Goldsmith fala remete-me de novo para a dificuldade humana de aceitar este olhar despegado de etiquetas e afins. Quando numa Constelação vem à luz que uma filha manteve relações sexuais com o seu pai, a primeira reacção humana será conectada ao mundo das aparências e, assim, de considerar imoral este acto. No entanto, mergulhando na dinâmica dessa Constelação podemos vir a perceber que esse foi um acto de “amor cego” por parte da filha aos seus pais, que deste modo, por exemplo, conseguiu ocupar o lugar de mulher de seu pai, e manter os seus pais juntos.
“Quando isto se torna claro para nós, não mais amaremos, odiaremos ou temeremos tais aparências. Não amaremos as pessoas de este mundo, mais do que as odiaremos ou temeremos, porém amaremos aquilo que constitui as pessoas: Deus, o Cristo, o Espírito e a Alma de todo ser individual na terra.”, assim vislumbra Joel Goldsmith.


Cada um de nós está ligado num todo maior e aceitar cada elemento é amar esse todo, e amando esse todo, amamos cada elemento. Na Consciência Espiritual ligadas às Constelações, nada fica de fora, nada é julgado. Quando honramos o destino de algo elemento da nossa família, ou quando nos despreocupamos em relação aos desenvolvimento dos nossos filhos, no fundo, quando aceitamos aquilo que é como é, estamos em conexão com esta Consciência e assim ganhamos um bem-estar que de outro modo é inexistente.
Quase em jeito de conclusão, Joel Goldsmith, diz-nos:


“Uma vez que você tenha percebido que existe uma Alma invisível, que é o ser real de todos, então você estará apto a olhar através das aparências, a olhar directamente através dos olhos, a verdadeira Alma que mora por trás da humana aparência.”
O Segredo do Princípio da Cura” é um texto que, como vimos, em muito se cruza e até ilustra o que é compreendido como Consciência Espiritual nas Constelações. Nem todos os facilitadores de Constelações, seguem esta linha de trabalho. No entanto, quem a quiser encontrar nos seus trabalhos, é apenas despir o seu olhar das aparências.



© Ana Filipa Oliveira – Junho de 2011




* tradução aproximada da expressão alemã: “das geistige Gewissen”

1 comentários:

Georgia disse...

Ana, o texto é muito bom. Muito rico em palavras, em conceitos e muito esclarecido.

Parabéns!


Gostei muito



Bjao